Em torno de uma mesma temática — Alma Animal —, o presente livro apresenta-nos um conjunto de sonetos em que Paulo Duarte
Castro interpreta e caracteriza poeticamente vinte e sete animais, um conjunto
de pinturas onde a artista plástica Nela Vicente os recria figurativamente com a alma do traço e da cor e um CD musical onde o compositor Carlos Lopes constrói um ambiente musical harmónico em sintonia com o espírito da obra.
Uma homenagem à natureza e aos animais.
Comentário
Em torno de uma mesma temática — Alma Animal —, o presente livro apresenta-nos um conjunto de sonetos em que Paulo Duarte
Castro interpreta e caracteriza poeticamente vinte e sete animais, um conjunto
de pinturas onde a artista plástica Nela Vicente os recria figurativamente com a alma do traço e da cor e um CD musical onde o compositor Carlos Lopes constrói um ambiente musical harmónico em sintonia com o espírito da obra.
Com este livro pretendem os seus autores prestar uma homenagem à natureza e aos animais.
Penso que o livro é um objecto estético que fala por si e que se substitui a grandes apresentações. Nesse sentido, ele é um objecto de fruição, que agora é levado à partilha.
Nos poemas que apresenta, Paulo Duarte Castro mantém-se fiel à sua veia intempestiva e à forma de soneto como a métrica mais adequada ao seu fluir poético.
Cada um dos seus sonetos mistura o realismo da observação empírica, o imaginário colectivo que se vai formando em torno de cada animal e a caracterização do que torna cada um deles ímpar e singular.
Neste sentido, ele faz-nos concentrar o olhar num mesmo mote: o talento de ser
natural em formas de vida nas quais os instintos aparecem fundidos com a
natureza numa harmonia peculiar tantas vezes profanada pelo homem e arredada
das suas percepções, estas cada vez mais pautadas por uma centralidade humana que o faz julgar-se
a si mesmo como animal superior.
No entanto, os animais, neste livro cantados poeticamente por Paulo Duarte
Castro não são vistos a partir do olhar sobranceiro do homem.
Pelo contrário, eles surgem como forças naturais com alma própria e com uma especificidade insubstituível em que podemos encontrar a sua beleza.
Veja-se, a título de exemplo, o poema: «O meu gato».
Espreguiçando as células ao sol,
Num esticar elástico e dolente,
O próprio dono exclui do seu escol,
A quem exibe um ar independente.
Saboreando o dia a dormitar,
Lambendo os raios de luz na linguagem
De um solarengo e sóbrio ronronar
Em que se esconde um ar belo e selvagem.
É caçador, é rápido e é atento,
É felina figura e com ciúme,
É brincalhão e sempre friorento,
Descontraído e vivo como o lume.
Autoritária… é pura, a Natureza,
Passeia simples, com delicadeza.
Devolvidos à sua alma animal eles resistem à devassa da utilidade cultural e aos adestramentos com que os homens os tentam
tornar cativos, tendendo a tratá-los tantas vezes com uma insensibilidade que degenera facilmente em crueldade.
No entanto, quanto Paulo Duarte Castro canta aos animais o foco é sempre posto naquilo que neles é admirável e de digna admiração. É isso que o poeta exalta nos seus sonetos.
Como se escreve no soneto «Almas sós»
Almas sós…
A identificação de cada instante,
Como um poder soberbo… irracional;
Saber tocar o tempo é uma constante,
É respirar instinto de animal.
Cada fracção do vento é realidade,
Cada nuvem que passa é um bater de asas,
Cada visão futura é imensidade,
E cada passo à frente é cinza em brasas.
Cada sussurro é fruto do momento,
Em cada sopro há nuvens que tu lavras;
Saber ser natural é ter talento,
É penetrar silêncios sem palavras.
Ser animal é ser rei verdadeiro,
Como é seleccionar a tempo inteiro!…
Mas, neste livro a poesia rima com a pintura.
A cada soneto, a artista plástica Nela Vicente faz corresponder uma pintura, numa globalidade de novo focada
no tema da alma animal.
Não fugindo ao estilo próprio que caracteriza os seus trabalhos — nomeadamente o recurso a cromatismos vivos que na visão de conjunto surgem sob a suave aura da harmonia, ou os motivos naturalistas
recriados com a força da ambiência fantasista da poesia — Nela Vicente é conduzida, pela temática do livro, a inserir no seu proto-universo de cores e motivos a presença dos animais.
A junção, nalguns casos feita através do recurso a técnicas mistas, surge sobre a forma do equilíbrio.
Numa integração perfeita dos elementos da natureza com os seus habitantes animais, cada ser
surge integrado em contextos que os parecem abraçar e que intensificam a sensação da sua pertença à natureza.
Nalguns casos, é nas cores que encontramos a maior densidade da carga simbólica — veja-se o touro, por exemplo —, noutros é o conjunto dos elementos, no seu impacto imediato, que funcionam como via de
acesso a um segundo olhar, desta vez mais analítico — veja-se, por exemplo, o lobo.
Há também pinturas em que é na complexidade da composição que a alma do animal em questão é realçada, como me parece acontecer com a pintura da raposa.
Mas, das pinturas que estão neste livro, não falarei mais, até porque nada substitui a atenta contemplação que delas pode ser feita na exposição que hoje se inaugura e que ficará patente ao público até ao dia 10 de Dezembro.
Apenas quero salientar que a rima que neste livro encontramos entre poesia e
pintura se pauta pela uníssona preocupação perante o modo como hoje a natureza tende a ser esquecida em detrimento do
artificial e como os animais, cada vez mais subtraídos ao seu habitat natural, se vão tornando seres quase raros e quiméricos, que um dia fizeram parte de natureza asfixiada pela civilização.
Porque não perguntar: e os animais? E a Alma Animal?
Finalizaria estas breves considerações acerca do livro com uma referencia ao CD musical que com ele vem incluído.
Numa terceira forma de arte — já não a poesia nem a pintura — é agora pela mão do compositor Carlos Lopes que nos é oferecida um conjunto de músicas em que se procura recriar a ambiência da alma animal.
Recorrendo aos sons naturais dos animais retratados neste livro, Carlos Lopes
combina-os com uma ambiência musical serena e com melodias que predispõem o ouvido para escuta lenta do envolvimento musical.
Desta forma, dá também o seu contributo para o livro e para a causa que moveu a sua produção.
Esperemos que a conjunção de artes que neste livro se cruzam possam contagiar-vos, quer no prazer da
fruição estética, quer no avivar da questão ética a respeito dos animais e cuja compreensão se revela sempre oportuna num mundo cada vez mais distante das suas raízes naturais.
Rui Grácio