Apresentação da obra
"Areias Movediças e outras histórias de inquietação"
de Adelina Velho da Palma
Em primeiro lugar, quero agradecer à Adelina Velho da Palma, a minha tia Adelina, o amável convite que me endereçou para fazer a apresentação do seu primeiro livro, "Areias Movediças e outras histórias de inquietação". Foi com muito prazer que aceitei o convite, e sinto-me muito honrada por
estar aqui, perante vós, para falar um pouco sobre a obra e a sua autora.
Conheço a Adelina há muitos anos, e desde muito cedo habituei-me a admirá-la pela sua inteligência fora do comum, pela maneira frontal como encara a vida e os outros, e pelo
seu sentido de humor.
Curiosamente, de entre as primeiras memórias que guardo da Adelina ressaltam, muito vivas, as lembranças, já antigas, de almoços e lanches, em Cascais, durante as férias, em que nos reuníamos à volta da mesa, naquela agradável descontracção própria das tardes de Verão, e seguíamos com prazer as histórias que nos contava, cheia de entusiasmo. Eram histórias repletas de um humor fino e inteligente que nos levava às gargalhadas. Histórias que nos encantavam especialmente pela originalidade dos raciocínios subjacentes ou pelo inesperado dos seus finais.
Estava eu longe de imaginar, nesses tempos, que um dia me veria a apresentar um
livro de contos da Adelina. E certamente também a própria estaria longe de o prever, até porque a sua vida profissional seguiu um rumo aparentemente distante das letras
e da escrita.
A Adelina foi uma aluna brilhante no liceu, e quando se tratou de escolher o
curso universitário optou pelas Matemáticas Puras, matéria a que dedicou o seu estudo e em que se licenciou pela Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. Leccionou Análise Matemática, como assistente na mesma Faculdade, e mais tarde embrenhou-se na informática, área em que tem feito a sua carreira profissional.
A verdade é que, embora as literaturas portuguesa e universal estejam repletas de
escritores oriundos das mais diversas e inesperadas profissões (por exemplo, se Júlio Verne e Kafka tiveram formação em Direito, já Fernando Namora, Miguel Torga ou Lobo Antunes a receberam em medicina), esta
preferência da Adelina pela Matemática não denunciava o seu talento para escrever.
Eis-nos, portanto, surpresos diante destas "Areias Movediças e outras histórias de inquietação"! E que surpresa feliz descobrir como a autora utilizou o seu arguto espírito de observação, a bagagem cultural que adquiriu ao longo dos anos, e a maturidade, associados
ao antigo gosto de contar histórias inteligentes, inesperadas, impregnadas de humor, para passar ao papel dez
contos inesquecíveis.
“Areias Movediças e outras Histórias de Inquietação”! Devo dizer, à partida, que estamos perante um livro que dá gosto olhar e folhear - a Pé de Página Editores está de parabéns! A capa é atraente, com a pintura de Zulmira Brandão, tão bem enquadrada, a chamar-nos para que mergulhemos nestas cento e cinquenta páginas de uma escrita surpreendente, mas simples, directa, muito bem apoiada no
diálogo. A leitura revela-se um autêntico prazer!
Ler os primeiros parágrafos de "O Mestre" - conto de abertura - é dar passos em território só aparentemente prosaico, que rapidamente se torna cativante, inquietante,
absorvente, ao ponto de dificilmente conseguirmos fugir-lhe. A verdade é que logo ficamos presos à narrativa, cujo desenvolvimento seguimos ansiosos, expectantes do final, que já adivinhamos inesperado.
Como escreve Massaud Moisés, professor titular de literatura portuguesa da Universidade de S. Paulo, e
autor, entre outras obras, do "Dicionário de Termos Literários", "No conto, especialmente o tradicional, o epílogo guarda um enigma. A narrativa articula-se rumo de um desfecho inesperado,
mas coerente com o todo da fabulação: o desenlace final se determina desde o começo. De onde a pedra de toque do bom contista não residir no epílogo mas na introdução; o saber principiar condiciona o andamento da intriga e o seu arremate."
Isto acontece em "O Mestre", que, tal como os demais contos deste livro, nos
prende desde as primeiras orações. Aqui, rapidamente somos introduzidos no mundo misterioso do centro de ioga e
das personagens que o povoam: o mestre Joaquim de Oliveira; Lucília, a observadora e lúcida professora de português; e a recepcionista, essa figura mirrada, sem nome, vestida de escuro, que é, afinal, a mulher do professor.
Depois, à medida que avançamos na narrativa, mais se adensa o mistério, maiores se tornam a expectativa e a urgência em descobrir o que se passa nos bastidores do centro de ioga, que segredo
se esconde por detrás dessa mulher queixosa, por detrás do enigmático mestre, e que destino está reservado a todos eles, incluindo Lucília, a aluna - professora.
No segundo conto - " Um caso de sucesso" - espera-nos um início esplêndido. Logo nas primeiras palavras a autora estabelece uma deliciosa
cumplicidade com o leitor, apelando à sua memória para lançar as bases da narrativa. Uma memória comum à autora e ao leitor, mas que é, evidentemente, ficcionada, e por isso mesmo cria uma forte relação de cumplicidade entre ambos.
Com um sorriso nos lábios, aderimos a esse jogo e prosseguimos a leitura, para verificarmos que o
conto é, afinal, uma inconfidência, o desvendar dos verdadeiros factos e motivos que estiveram na origem desse
acontecimento que chegou ao conhecimento público: o estrondoso sucesso que foi o lançamento do produto Sublimac pela empresa Vago SA. .
E, assim, são-nos apresentados os protagonistas: o improvável autor desse sucesso, o Engº Estorninho, um indivíduo baixo, franzino, de físico pouco atraente, e o Rodolfo Frederico, o seu enteado fantasticamente
bonito, alto, musculoso, de feições correctíssimas.
Como e quanto o fabuloso Sublimac irá mudar a vida destes dois seres, tão profundamente diferentes, constitui a divertida descoberta desta história.
Em "Tiago" - o terceiro conto - Adelina Velho da Palma muda de registo. Leva-nos
a penetrar na "natureza misteriosa e desconcertante" da paixão, que, segundo as suas palavras, "tem uma estranha forma de se evaporar,
deixando um sabor amargo na boca". Faz-nos descobrir, com surpresa, o poder
inesperado de um simples olhar!
Seguem-se "O Investimento", num ritmo óptimo, sempre interessante, "O Almoço", com esse final inesperado, que nos deixa a sorrir, e "Uma questão de princípio", muito bem narrado, consistente, a prender-nos do princípio ao fim.
Nos contos "O melhor namorado" e "O barco da vida" deparamo-nos com essas
ironias do destino que parecem espreitar a vida dos que mais pensam estar
prevenidos contra os reveses da fortuna.
E eis-nos chegados à penúltima história de inquietação: "O círculo", um conto perfeito, intrigante, absorvente, com o mais inesperado dos
finais.
Aviso-vos! Por melhor preparados que estejamos, por mais que especulemos ou
conjecturemos sobre o desfecho deste conto, jamais conseguiremos prever o que
se vai passar. Vamos seguindo, num crescendo de curiosidade, os meandros da
narrativa, envolvemo-nos com o oculto, e desembocarmos num final absolutamente
surpreendente!
Resta-nos o derradeiro conto, o que dá título à obra: "Areias movediças".
Mais uma vez, de forma inesperada, Adelina Velho da Palma muda completamente de
tom, e surpreende-nos com uma narrativa comovente, onde não encontramos vestígios da ironia ou do espírito jocoso que nos acompanharam em boa parte dos textos anteriores. Achamo-nos,
agora, num plano totalmente diferente. Mergulhamos numa escrita muito bela,
muito serena, que pinta um retrato maravilhoso de Tavira, da cidade, da
paisagem, da sua história e das suas lendas. E, nesse cenário admirável, conta-nos, de uma maneira primorosa, a história de uma paixão, de uma vida, de um drama que esconde um terrível segredo.
Ao lermos esta narrativa emocionante, em que cada palavra surge no momento
certo, no lugar certo, apercebemo-nos de que se tratou de uma escolha correctíssima eleger este conto, de entre todos, para baptizar o livro, e para o
encerrar. Ao terminarmos a sua leitura, não podemos deixar de querer ler mais da escrita de Adelina Velho da Palma, uma
excelente escritora que desejamos continue a encantar-nos com o seu espantoso
dom de criar personagens e tramas admiráveis.
Lisboa, 21 de Maio de 2005
Ilona Bastos