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  Especialista em pequenas narrativas de que saltam mundos,
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Título: Novíssima Cartilha Ilustrada
Autores: Pedro Monteiro, Rodrigo Monteiro e Rui Cardoso
Preço: 15 euros
Ano de publicação: 2004
Formato: 14,8 x 14,8 cm
Acabamento: capa dura
Disponibilidade: Disponível
N.º de páginas: 64
ISBN: 989-614-005-7
Classificação: humor

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Sinopse:  Aprender com humor. Bom... de qualquer forma, rir e recordar.
"Este livro é um objecto lúdico que poderá ser também didáctico... Torna-se por isso, um instrumento passível de ser utilizado no ensino primário e, de forma complementar - pelo humor despudorado e a iconoclastia - nos programas de alfabetização de adultos e no ensino em instituições de reinseerção social e estabelecimentos prisionais.
Trata-se, no fundo de um exemplo acabado de literatura infanto-juvenil-adultil."


«Sem o mau gosto, a vida não tem gosto nenhum»
Excerto da entrevista a Rui Zink por Francisco Moreira e Tiago Pimentel, artigo publicado no jornal a «cabra» em 16/11/1004
 

Como surgiu a hipótese de vir a Coimbra apresentar a "Novíssima cartilha ilustrada"?

Foi muito engraçado. Aceitei "às escuras". Lembrei-me daqueles advogados americanos dos filmes, que às vezes fazem coisas "pro bono", o que significa que enquanto estão a ganhar dinheiro a defender criminosos, de vez em quando têm de fazer uma coisa que seja completamente "às escuras", com alguém fora do sistema. Os autores enviaram-me um e-mail, há dois ou três meses, e disseram-me: "Você não nos conhece, nós não o conhecemos, nós vamos fazer uma coisa um bocado satírica que achamos que o podia divertir e gostávamos muito que a viesse apresentar a Coimbra". Eu estava em França, estava no meu "chalet" na Provença como todos os escritores têm, e a minha primeira reacção foi: "Estes gajos estão doidos, vou perder tempo, vou chegar a Novembro e ter montes de coisas para fazer, estão doidos". Depois, achei que a aproximação foi muito simpática, tal como a vossa, e lembrei-me da aproximação que eu, quando tinha vinte anos, ou seja, quando era um ilustre desconhecido, fazia, e que, sabendo que estava a pedir uma borla, é necessariamente uma aproximação delicada. Ser radical não implica ser malcriado, geralmente implica o contrário. Ser burguês é que implica ser malcriado. Malcriado para a criada, e bem-criado para o doutor. E pronto, aceitei "às escuras". "Farejei" que eram pessoas decentes, e depois tive a agradável surpresa de o serem mesmo e do livro ser muito bom. Em vez de ser uma honra para eles terem a excelência da minha presença, foi para mim uma honra ter a oportunidade de participar nesta magnífica brincadeira.

A "Novíssima cartilha ilustrada" poderá de algum modo, se calhar ironicamente até, reflectir alguma preocupação com a língua portuguesa?

Esta cartilha faz o mais básico dos jogos com letras. Põe palavras juntas, que têm a mesma letra, num jogo muito infantil. A cartilha original era para crianças muito pequenas, embora fosse inadequada. Mas "de pequenino se torce o pepino". A literatura portuguesa começou por ser jogo, e nasceu com duas pernas. Com o tempo, foi ficando coxa. Coxa por culpa do poder religioso, do poder político. No século XIII e XIV, havia a chamada literatura galaico-portuguesa, numa altura em que não havia a separação entre a Galiza e Portugal. Assim, temos as cantigas de amigo e de amor, a poesia lírica, no fundo, as "coisas boas", na mão direita, se quisermos, e temos as cantigas satíricas, de maldizer, a chamada mão esquerda. A sátira escreve-se com a mão esquerda. Aliás, é a mão "sinistra", como dizem os italianos. E isto é o berço da nacionalidade. Com o tempo, os poderes político e religioso foram deitando abaixo, não há mesmo outra palavra, é o bota-abaixo do lado mais autocrítico da língua, que é o acto criativo. Tudo isto deitou abaixo o Fernão Mendes Pinto - "Fernão, Mentes? Minto" - mandou o Bocage para a prisão, esqueceu-se do Gil Vicente, que apenas se safa porque é o único dramaturgo do seu tempo, mandou para a prisão outros autores que hoje não conhecemos, como Augusto Gregório de Matos, do século XVIII, conhecido como o "boca do Inferno". A literatura portuguesa anda coxa se não tiver textos como este, que são lúdicos e satíricos. Esta é uma cartilha obviamente satírica e ao mesmo tempo lúdica. É o jogo de palavras pelo prazer do jogo. Houve uma besta chamada Luís António Verney que veio dizer "Quando há poesia com jogos formais, não interessa nem ao menino Jesus. Tem que ser moral". E hoje ainda estamos a esconder aquilo que é uma perna, não é a perna melhor, mas é uma das pernas. Temos andado a coxear porque somos vítimas de uma ditadura de mentalidades que ainda acontece na nossa cabeça. Este livro brinca com as palavras e com os sentidos por detrás delas. Umas vezes é malicioso, outras é apenas simpático, outras é de mau gosto. O mau gosto tem muito má fama, mas sem mau gosto a vida não tem gosto nenhum. Além disso, geralmente, o mau gosto é o gosto dos outros. O meu gosto é sempre meu, logo, bom. E eu acho que as ilustrações do Rui Cardoso, que são "más" ilustrações, são ilustrações mazinhas e ajudam muito à viagem que esta cartilha vai agora iniciar.


Na "Novíssima cartilha ilustrada" não estará também implícita alguma inquietação quanto à realidade política e social portuguesa?


Sim, nesse caso cada leitor vê o que quer. A introdução do Augusto Monteiro é muito interessante porque chama a atenção para o paradoxo da cartilha de há sessenta anos, que prometia ser realista e simples, mas era complicada. Tinha frases que não faziam sentido nem na cartilha nem para as crianças, e uma forma de transformar as crianças em Eusébiozinhos (personagem d'"Os Maias") é fazê-las decorar palavras como esternocleidomastoideu, pisá-las com uma língua perigosa que as assusta. Havia uma cartilha cuja função, dizia-se, era ensinar as crianças mas que na verdade era, "capá-las". E há esta cartilha, do prazer da língua, o que para mim é essencial. Não é circunstancial no sentido em que no "s" não está lá Santana. Isso seria um empobrecimento, porque ficaria dependente do referente externo. Mas por exemplo na parte do "m", em que o indivíduo diz que "a fome é negra mas é nossa", eu penso que temos aí um belíssimo achado porque fala sobre os nossos tempos. Qualquer dia temos que protestar para termos direito ao desemprego. E aí já não me parece uma expressão circunstancial. Não está a dizer "houve professores mal colocados", ou "há pessoas desempregadas". Está a conseguir aquele efeito "bomba de neutrões" que a boa literatura consegue. Uma frase assassina que de repente ganha uma amplitude e um sentido porque é do seu tempo e obviamente do seu espaço, mas que também os transcende. Eu acho que "a fome é negra mas é nossa" é de um grande humor negro. Fixem bem isto: Karl Krows, antes do nazismo, em 1929, dizia que "um dia havemos de calçar luvas de pele humana", e as pessoas comentavam o sentido de humor macabro que ele tinha e depois foi o que se viu. Também aqui, tomem nota das palavras da cartilha tal como eu as entendo. Qualquer dia estamos a pedir autorização para nos manifestarmos pelo direito ao desemprego.

Rui Zink
Pé de Página