Comentário
«COM QUE PALAVRAS E SEM QUE PALAVRAS?»
Manuel António Pina e a poesia
Manuel António Pina (M.A.P.) pretende não ter nenhuma teoria sobre a poesia e nenhum pensamento formado sobre a sua criação poética. A poesia seria já por si o seu próprio pensamento ou teorização, a única inteligibilidade de si mesma. «Eu não penso muito a minha poesia, ela é tudo o que penso sobre ela»(1). Modéstia do poeta, sem dúvida. Mas não só. A dificuldade de M.A.P. em falar da (sua) poesia remete, como ele o dá a ver nas entrevistas de Dito em voz alta, para razões mais profundas. Remete, por um lado, para a afirmação da autonomia da palavra poética, de que na poesia «as palavras fazem sentido por si mesmas» (p.32) e não em função de outras palavras que as explicariam ou de ideias extra-poéticas de que elas seriam a expressão, a metáfora ou a imagem literária. E, por outro lado, para a consciência de um «não saber» inerente à escrita de poesia, da presença de um «domínio de obscuridade» (p.52) no mais íntimo dessa escrita, de uma essencial intransparência do dizer poético até na sua eventual luminosidade (2). É certo que essas razões não são exclusivas de M.A.P. e da sua relação com a sua própria prática poética, elas serão comuns, supomos, à maioria dos poetas. Mas os termos em que M.A.P. expõe «em voz alta» essas razões nestes textos fazem entrever todo um conceito implícito ou inarticulado como tal do poético, uma concepção crítica de poesia presente em acto na poesia do autor. É essa concepção que tentaremos aqui explicitar de maneira resumida em quatro traços correlativos mais ou menos recorrentes nesses textos.
1. POESIA E REVELAÇÃO. Intransparência, dizíamos, da escrita poética, resistência objectiva do sentido do poema. Mas resistência desde logo ao próprio poeta, que só é escritor porque primeiro é o leitor (o intérprete) por escrito de si, ou de qualquer coisa em si que não conhece mas que quer ser dita, de «qualquer coisa que quer transformar-se em palavras» na fórmula de Claudel (pp.32,99). Afirma Inês Fonseca Santos, na introdução do livro, que estas entrevistas apresentam um M.A.P. leitor de si mesmo, ou
antes, leitor de um outro, do M.A.P. escritor. Mas é já o M.A.P. escritor que é enquanto tal leitor, e leitor de um «outro» de si, ou que só pode dizer «eu», escrever «eu», porque, como em Rimbaud, eu é já outro, um outro que fende a identidade (a auto-consciência) do poeta. Ler é ler-se, «quem lê, lê-se» diz M.A.P. (pp.55,83), é em nós que lemos o que lemos ou é a nós que nos lemos no que lemos como também explicava Marcel Proust(3), mas é o escritor e sobretudo o poeta que é já um leitor de si, do seu eu fendido: escrever é já ler-se, é «um modo de ler por escrito» p.59)(4). Com efeito o poeta só escreve na medida em que se lê, em que lê em si, como depois dele o leitor a quem o poema afecte, «aquilo que, do mundo, em nós, nós não compreendemos bem» (p.35). Isto é: na medida em que «revela», em si mesmo e a si mesmo, dizendo-o ou tornando-o dizível –«com que palavras e sem que palavras?», citando um verso do poeta–, o que em nós e no mundo é e permanece indizível e incompreensível. O poema –falamos como M.A.P. da poesia que conta, da que manifesta uma tal consistência ontológica, um nexo tal com o obscuro domínio do ser– é essa revelação (p.36), a auto-revelação, para o poeta e para o seu sensível leitor, de algo que ele já sabia mas não sabia que sabia (ibid.). Dito de outra forma, a poesia possui uma relação constituinte com o mistério (cf. p. 35), com o que se pode reconhecer mas não conhecer: o mistério do mundo e de nós, do tempo e da memória, das palavras e das coisas. Ela é a voz do mistério, essa «voz inicial e pura», espécie de infância da linguagem, que de cada vez reinventa a linguagem para lá de si própria e contra si própria como visão directa ou vidência do Ser (pp.42-43). Será isso, em suma, a poesia, ou pelo menos será esse o seu poder superior: um dizer que diz o indizível enquanto indizível.
2. A POESIA E O EU. Com frequência a poesia de M.A.P. diz «eu», é a poesia de um eu, subjectiva nesse sentido. Mas quem é esse eu, quem fala no poema, se vimos já que aquele que escreve é sempre outro que aquele que se vê escrever, que o eu poético não coincide com o eu do poeta? Com efeito a grande poesia, sendo sempre
verdadeira, nunca é sincera, a verdade da escrita e do eu escrito não é a verdade do eu do escritor e dos seus sentimentos pessoais. A poesia pode
suscitar e até querer suscitar emoções e sentimentos, mas «não se escreve poesia com sentimentos, ou com emoções, mas com a memória. Ou com o esquecimento, que é um modo particular da memória» (p.53). A sinceridade, a verdade dos sentimentos, é inimiga da verdade poética, ou só produz, como afirma ainda M.A.P. citando Oscar Wilde, má poesia (ibid.). Não se escreve com o vivido, mas com o não vivido e não vivível do vivido, com a sua face sombria ou a sua parte de mistério, isto é, com o que no vivido ou do fundo dele na memória e no esquecimento nos interpela e não compreendemos e assim nos escapa, como uma falha interior que nos torna por
dentro exteriores a nós. Por exemplo a infância, tema recorrente na poesia de M.A.P., que nunca o é enquanto vivida, que nunca se pertence ou existe para si mesma, que só existe e nos pertence através da memória, da distância da memória, como um «sem-tempo» sobrevoando o tempo vivido (p.14). É neste sentido que a verdade da escrita poética é sempre a verdade de um «outro» ou de um devir-outro do escritor, que «é sempre outro aquele que escreve» na expressão do próprio M.A.P., que o poeta é não ele mas uma sua «personagem» e que o «eu» e o «tu» poéticos são figuras «teatrais» e a poesia toda ela «dramática»: teatro da Alteridade, ostensivo em Fernando Pessoa mas constituinte talvez da
cena poética moderna (sobre tudo isto cf. pp. 17-18,36,58,59,117). E é também nesse sentido que M.A.P. assume a sua poesia como uma vidência de si «do lado de lá do espelho» (p.100), como um olhar exterior sobre si mesmo, e sobre si mesmo olhando-se
(p.75), o olhar de um Outro que o olha aquém dos olhos. A moderna poesia, ou pelo menos a sua, seria essa íntima presença do poeta diante da sua própria ausência ou impossível identidade (5), o frente a frente com o seu «outro» que lhe devolve nos olhos os olhos das coisas dentro de si: «uns grandes olhos que em isto tudo há» (verso cit. p.18). Por isso pode M.A.P. dizer que a voz do poema (ou dos seus
poemas) não é a voz subjectiva do poeta mas uma voz impessoal, a voz anónima do próprio poema, ou que são as próprias palavras poéticas que falam e que falam do que falam (isto é, do incompreensível e inominável). Que por conseguinte as palavras poéticas, mais do que faladas pelo poeta, o falam e dizem o que ele não é pessoalmente capaz de dizer, falam por si mesmas num lugar vazio, no lugar de
um sujeito ausente: «há (acho eu) um sujeito que fala e que, falando, é falado por tudo o que as suas palavras não são capazes de dizer. Um sujeito, pois, que falta» (p.52,cf. p.54).
3. POESIA, PALAVRA E IMAGEM. Afirmámos que a poesia que conta é a que possui consistência ontológica. O que é exacto mas não tem nada a ver com poesia filosófica ou de vocação metafísica, com «poesofia» (p.15). O mistério do ser que a poesia nos revela pode muito bem ser, e é quase sempre, o mistério das coisas mais simples, mais quotidianas, o indizível mistério do vivido. De facto a poesia segundo M.A.P –ou a poesia de M.A.P. e a de que ele gosta, a poesia da sua família ou da sua consanguinidade poéticas como ele diz (p.32)– não é poesia de ideias, não se faz com ideias nem parte de ideias, e será «tudo menos a ilustração de um pensamento sobre a poesia» (p.14). Faz-se com palavras como dizia já Mallarmé e parte de palavras, eventualmente de uma só palavra que pode sugerir um verso, ou de um verso que pode não ser ainda um verso mas apenas palavras que o moldam e assim lançam o poema, a conquista do poema, até porque, como afirmava Valéry citado por M.A.P., o primeiro verso é dado e os outros conquistados. Não são as palavras poéticas que exprimem ideias, são as ideias poéticas que nascem das palavras e das suas aproximações ou afastamentos, do seu jogo na topologia do poema, e dos efeitos visuais e
musicais desse jogo, da música e da pintura especiais componíveis com elas e impossíveis fora delas (cf., sobre tudo isto, pp.31-33). O que não significa que a poesia seja um mero jogo com as palavras, uma escrita reduzida
a um exercício de virtuosismo literário sem um confronto interior da linguagem com um seu exterior indizível, sem nada a revelar, nenhuma visão ou sensação para lá das palavras, nenhum silêncio sob elas. Essa poesia «virtuosa», sem verdadeira espessura ontológica e por isso quase sempre arbitrária ou desprovida de necessidade intrínseca, e que hoje prolifera talvez como nunca, é a praga da poesia. Não admira que M.A.P., que sabe do que fala, tenha uma opinião muito crítica sobre a poesia portuguesa contemporânea: «três ou quatro muito bons poetas» (e na chamada nova poesia destaca, com razão, Daniel Faria), «uma quantidade razoável de bons ou razoáveis poetas no estilo do período e algumas glórias e gloríolas de circunstância, ou nem por isso» (p.27,cf. pp.84 e 104; note-se que à data desta entrevista Eugénio de Andrade e Sophia ainda viviam, pelo que há que fazer contas de subtracção).
Com efeito, o que justifica a poesia e a prestigia como arte, como uma função criadora exclusiva, são as Ideias propriamente poéticas, as Ideias que só ela sabe produzir, isto é, as extraordinárias imagens ou visões que ela constrói com palavras e como um além das próprias palavras, essas vidências não linguísticas, sensações puras, esculpidas na linguagem pela linguagem poética. A poesia faz-se de facto com palavras, com apenas a matéria ou o material das palavras, mas em rigor não está nelas, mas «fora», num fora indizível só possível todavia através delas. O dizer poético instala-se à partida no limite da linguagem ou do dizível mas para forçar esse limite, para criar uma espécie de excesso ou excedência da linguagem para outra coisa, para um seu avesso indizível: «iluminações», dizia Rimbaud, «revelações», diz M.A.P., nos interstícios das palavras, Imagens apocalípticas no sentido original (apocaplipse=revelação, desvelamento) do obscuro do mundo e de nós. Nesta perspectiva a poesia é a mais imediata expressão (ao contrário da arte do romance, cuja especificidade passa por aceder a essa expressão através de outras mediações) do supremo poder da linguagem, da auto-ultrapassagem da linguagem para visões (e audições) extra-linguísticas, para um ver e um sentir não dizíveis e que porém são tudo o que o poema quer dizer como cristalização objectiva de vida, do «domínio de obscuridade da vida», para lá de todo o vivido. Por outro lado, se a poesia não é portanto a metáfora de ideias pré-poéticas como tal dizíveis ou enunciáveis mas pelo contrário a enunciação de Ideias próprias como indizíveis sensações visuais e musicais, então ela dá-se e só pode dar-se numa apreensão imediatamente sensível ou afectiva, não cerebral, que desclassifica toda a discussão, toda a crítica. É-se ou não da mesma sensibilidade poética, do mesmo sangue como diz M.A.P., da mesma estirpe de afectos do poeta,
lemo-nos ou não lendo-o, sem nada mais a considerar, sem outra «avaliação» possível.
4. A POESIA E O INDIZÍVEL. A poesia, como acabamos de ver, possui uma relação de essência com o indizível, é a arte do indizível. Ela não está no que diz mas no indizível do que diz e que é a razão desse dizer. Ou, nos termos de M.A.P., ela é a voz do infalável, uma voz impessoal «falando num lugar vazio e infalável»: «é o infalável que fala, ou tenta desesperadamente falar, na poesia; pelo menos na minha» (pp.54,89). Desesperadamente porquê? Porque essa infalável voz poética é uma voz que fala ou tenta falar sob a linguagem e a memória, sob as vozes da memória do poeta e a memória da própria linguagem, é a voz de um «silêncio original» (p.89) das coisas e de um silêncio imemorial no fundo de nós, de uma muda «revelação» de nós e do Ser por detrás das cortinas das palavras e das lembranças. E porque todavia ela só pode falar ou fazer-se ouvir através das palavras e da memória («como esquecer?», pergunta o poeta ibid.), como um silêncio na linguagem (e uma desmemória na memória), ou como voz de um exterior ainda interior ou de uma proximidade
irredutivelmente distante (6). A grande poesia, sempre improvável, é de cada vez o silencioso Acontecimento dessa «voz inicial e pura» (pp.42,89), «entre as palavras enquanto silêncio e o silêncio do mundo enquanto palavras» (p.52), que descortina e nos faz descortinar para lá da memória e da linguagem, ou debaixo delas, o indizível mistério do Ser e de nós, visões do que escapa a toda a compreensão e é a sombra do que somos e compreendemos, «imagens de qualquer coisa inominável tentando falar no meio de tanta memória» (p.89,cf. pp.42-43). À poesia, diz M.A.P., pouco mais é dado do que ser essa voz, ou esse silêncio que se serve das palavras para se fazer escutar. E é precisamente o rumor desse silêncio ou dessa voz atrás da voz nos poemas de M.A.P. que faz da sua poesia uma das maiores criações poéticas do nosso tempo.
Resta dizer que, como o indica o subtítulo «entrevistas sobre literatura, isto é, sobre tudo», Dito em voz alta não trata apenas de poesia. Também por exemplo de cinema, de teatro e do outro género de escrita, a literatura infantil, em que o autor se destacou desde o seu
primeiro livro, O País das pessoas de pernas para o ar, agora reeditado na Pé de Página. E, evidentemente, do próprio M.A.P., que aqui se auto-apresenta, com inteligência e humor, e à maneira de Borges, como uma personagem ainda ou já uma ficção antes de toda a literatura.
SOUSA DIAS
1. MANUEL ANTÓNIO PINA, Dito em voz alta, Pé de Página Edits., Coimbra, 2007, p.14. Sobre a dificuldade do A. em falar da sua
poesia, cf. pp.51-52 e p.89. [São deste livro todas as citações feitas no presente texto]
2. Cf. p.36: «Normalmente, costumo desconfiar (…) dos meus poemas que compreendo perfeitamente. Daqueles de que estou
perfeitamente e excessivamente auto-consciente».
3. MARCEL PROUST, Le Temps retrouvé, ed. Le Livre de Poche, p.319 : «Cada leitor é quando lê o próprio leitor de si mesmo»; e p.471: «Porque eles não seriam, segundo eu, os meus leitores, mas os próprios leitores de si mesmos (…) o meu livro, graças ao qual lhes forneceria o meio de lerem em si mesmos».
4. Cf. p.18: «O poeta vê-se cegamente também como vidente (leitor) de si mesmo».
5. Se M.A.P., em Dito em voz alta, por vezes afirma que a sua relação com a poesia é a «procura de uma identidade» na alteridade (p. ex. p.100), por outro lado afirma também já não esperar hoje da sua poesia «o que ela [lhe] não pode dar, uma identidade» (p.20), perguntando até «e para que raio precisaria eu de uma identidade?» (ibid.). (A questão da identidade-alteridade do poeta e do sujeito poético ou literário atravessa o conjunto destas entrevistas).
6. Cf. p.89: os poemas do A. como «só aproximações, tentativas de tocar algo irremediavelmente distante, talvez de tão elementar e de tão perto».
Comentário
Quando o Manuel António Pina me disse que gostava que eu escrevesse as páginas introdutórias de Dito em voz alta, respondi-lhe imediatamente que seria um prazer e uma
honra fazê-lo. E respondi-lhe deste modo com toda a sinceridade, sem estar a exagerar ou a
ser cordial. A verdade é que é sempre um prazer regressar à obra de um grande poeta, de um grande escritor, como o Manuel António Pina. E é sobretudo um prazer regressar a uma obra destas quando estamos acompanhados por
quem a criou.
Este livro, Dito em voz alta, proporciona exactamente essa experiência – a experiência de podermos reler a obra de Pina levados pela mão do escritor; ou, como se diz num dos seus poemas, como se alguém nos levasse «pela mão por uma realidade/ feita da (...) vida [dele] e de coisas reais/ a que
pertencem ele (...) e o que pensa.»(1).
Como escrevi na introdução de Dito em voz alta, desde 1973, ano da publicação d’O País das Pessoas de Pernas, obra agora reeditada pela Pé de Página, e também desde o primeiro livro de poesia do Manuel António Pina, Ainda não é o fim nem o princípio do mundo calma é apenas um pouco tarde, de 1974, Pina tem vindo a revisitar os mesmos lugares
temáticos, retomando os grandes temas e motivos que compõem a sua obra. E não me refiro apenas à obra poética, mas também à obra infanto-juvenil, às crónicas, à ficção (Os Papéis de K.), aos ensaios que por vezes M.A.P. escreve, e até mesmo a estas dez entrevistas de Dito em voz alta. Estas entrevistas, as
respostas que Pina dá às perguntas que lhe são feitas, integram também a sua obra. Quem lê este livro, compreende que as conversas se vão completando e que as histórias e as reflexões de Manuel António Pina são reiteradas ao longo dos anos e de entrevista para entrevista. Porém, esta repetição nada retira às suas palavras, e os leitores são frequentemente surpreendidos por elas – mesmo aqueles que já conheciam estas conversas.
Tal como na poesia de M.A.P., o que acontece é que as suas palavras têm a capacidade de nos dizerem mais em cada nova leitura, como se o seu sentido
se ampliasse, aproximando-se de nós e da distância a que sempre e irremediavelmente nos mantêm. No fundo, basta reparar no subtítulo de Dito em voz alta – Entrevistas sobre literatura, isto é, sobre tudo. É a literatura e este tudo que ela pressupõe que mantêm quem escreve e quem lê nesse jogo de aproximação e distanciamento daquilo que pela escrita se procura: o sentido exacto das
palavras, o lugar originário e constitutivo de onde se avista aquilo que simboliza a poesia.
Numa destas entrevistas, a que deu a Osvaldo Silvestre e Américo António Lindeza Diogo, Pina sustenta que a literatura partilha «da mesma natureza ilusória do ser e do mundo, na medida em que ela própria é ser e mundo» (p. 22). As palavras de Manuel António Pina, sejam elas escritas num poema, numa crónica ou numa resposta a uma simples pergunta, possuem a capacidade de
surpreender. Pina é sobretudo um poeta e, por isso, tudo o que escreve aponta para um outro rosto,
procura esse outro rosto literário que se esconde debaixo de mais palavras e que, através delas, tentamos encontrar.
Porque a literatura é sobretudo ilusão ou, como sustenta M.A.P. na entrevista de Ana Marques Gastão, o que ela «ensina de mais substancial ensina-o apesar dela; e frequentemente apesar do
escritor» (p. 56). O mágico, ou criador de ilusões, que nos fala em voz alta neste livro parte do jogo da literatura para o da
vida e vice-versa; conta-nos e deixa de nos contar o que está por detrás ou para além dos livros que tem publicado; mostra-nos os seus rostos e simultaneamente as
suas máscaras. Em suma, encara-nos armado com um espelho, tal como lhe fizeram os
responsáveis por estas dez entrevistas, e cabe-nos a nós, leitores/espectadores, descobrir em que fragmento dele encontramos o nosso
reflexo.
Se – e volto a citar o que diz M.A.P. numa conversa, a que teve com Sérgio Almeida – «a prosa está para a poesia como a marcha está para a dança» (p. 85), neste livro encontramos o escritor de pernas para o ar, para usar
parte de um outro título de M.A.P.. Isto é, encontramos Pina mais no papel de leitor do que no de autor. Parece-nos a nós, que somos apenas leitores e que andamos de pernas para o chão, que a posição de M.A.P. neste livro, estar de pernas para o ar, é uma posição pouco confortável; mas, apesar de Pina se considerar dispensável no que diz respeito à interpretação e ao entendimento da sua literatura e de confessar, aqui e mais do que uma
vez, que a maior dificuldade destes diálogos reside precisamente no pedido que lhe é feito para definir a sua poesia, julgo que anda bastante bem de pernas para o
ar; anda tão bem como a personagens d’O país das pessoas de pernas para o ar que o Fausto, um passarinho que fez as malas e
foi conhecer o mundo, encontrou. Quando Fausto lhe perguntou «Por que é que vocês andam todos de pernas para o ar?», essa personagem, essa «pessoa que se chamava George», respondeu «Porque assim é a única maneira de andar». O que acontece é que M.A.P., no volume Dito em voz alta, ensina os seus leitores a fazer o pino,
como acontece no fim desta história d’O país das pessoas de pernas para o ar, e assume-se como o mais surpreendente dos
seus leitores.
Estas conversas podiam não existir, de facto; e Manuel António Pina, tal como Borges, também podia não existir – e volto a lembrar uma das histórias que Pina gosta de contar, aquela com que abro a introdução de Dito em voz alta (p. 7). É certo que também não existem países em que as pessoas andam de pernas para o ar. Mas, sendo todas estas
entrevistas glosas desse imenso poema composto pela obra literária de Pina, elas revelam a relação íntima que o escritor mantém com o que escreve.
Há um verso de um poema de Ainda não é o fim nem o princípio do mundo calma é apenas um pouco tarde que ilustra bem este aspecto; diz assim: «Literatura que faço, me fazes»(2). Este diálogo em espelho do poeta com o que cria, este ludismo que caracteriza toda a
obra de M.A.P. e através do qual a desordem se impõe perante a ordem, prova que a literatura, sendo ilusão, é também jogo – jogo disputado com as palavras e entre as próprias palavras, que, por sua vez, são o caminho para mais palavras (repare-se que estas entrevistas são feitas de palavras e falam de palavras); jogo da literatura que consubstancia
o próprio acontecer da linguagem e que se quer jogar para sempre ou, pelo menos, até que o escritor se depare com aquilo a que Foucault chama o «murmúrio incessante onde se forma a literatura» (3)ou, segundo Pina, até que o escritor se encontre finalmente com o seu silêncio (4).
Mas o melhor de tudo isto – deste livros e da obra de Pina, sobre a qual se reflecte nas entrevistas de
Dito em voz alta – é que os leitores também são convidados a entrar no jogo, e aprendem de facto a fazer o pino, aprendem a
regressar a palavras já ditas e já escritas, pensando-as de uma forma diferente, reencontrando-as já transfiguradas pela própria passagem do tempo, pela erosão da memória, pelo acumular de vivências e retornos.
Há dias, numa crónica (5) sobre a necessidade de defender ou não a poesia, Manuel António Pina escrevia que a poesia é principalmente uma questão que cada poeta tem consigo mesmo. Dito em voz alta, sendo um livro no qual se
nota que quase todas as entrevistas começam com uma questão ligada à poesia e à importância da palavra poética, não é uma defesa da poesia. Muito menos este texto. A poesia de Pina, assim como tudo
o que escreve, não precisa de defesa – ela encontra em si mesma a sua grande razão.
Inês Fonseca Santos
1. In «Gödel em Princeton», Poesia reunida, Lisboa, Assírio & Alvim, 2001, p. 138
2. In «Desta maneira falou Ulisses», Poesia reunida, Lisboa, Assírio & Alvim, 2001, p.
3. In As palavras e as coisas – Uma arqueologia das ciências humanas, tradução de 4. António Ramos Rosa, Lisboa, Edições 70, 2002, p. 157.
4. Cf. «Desta maneira falou Ulisses», Poesia reunida, Lisboa, Assírio & Alvim, 2001, p. 25.
5. «Defender a poesia», Jornal de Notícias, 17 de Maio de 2007.