Póvoa de Varzim, 15/2/2008
Correntes d’Escritas, Sessão de lançamento «Olá, eu sou um livro!».
Quando editei o Olá, eu sou um livro!, ainda não existia o chamado Plano Nacional de Leitura e eu queria chamar a atenção para o livro enquanto objecto que pode ter um papel importante nas nossas
vidas.
A via que utilizei foi a da personificação, ou seja, dei voz a um livro infanto-juvenil que, saltando de uma prateleira
numa livraria, acaba por entabular conversa com uma criança chamada Emília.
Não vou revelar aqui o teor do diálogo, até porque, nesse ponto, a leitura é insubstituível.
Mas vou, no entanto, partilhar convosco aquilo a que poderei chamar roteiro temático do livro, ou seja, os aspectos e as questões que ele permite abordar.
Eis, então, por itens, alguns dos pontos para que este trabalho abre e que permite
explorar:
• Um livro não é só um livro: envolve um conjunto muito lato de dimensões.
• O livro enquanto «bem» de consumo: será que um livro é um bem de primeira necessidade?
• O livro enquanto produto comercial/cultural e as suas dificuldades (e aqui
temos um livro e um livreiro queixosos).
• O livro do ponto de vista da criação autoral. Quem está por detrás de um livro? Que trabalho está implicado na concepção de um livro?
• O livro enquanto objecto de partilha. A quem se destinam os livros? Quem está por detrás da edição de um livro?
• O percurso de vida de um livro. Como é que é a vida de um livro? Qual o seu tempo de vida? O que é que faz com que um livro seja lembrado ou seja esquecido?
• O conceito de «mundo do livro». Que quer dizer «mundo do livro»? O que é que é preciso para entrar no mundo de um livro?
• O livro e a leitura como enriquecimento, forma de crescimento e forma de
estabelecer laços de amizade. Porque é que os livros nos enriquecem? Em que medida nos podem fazer crescer? Como é que os livros podem ser nossos amigos?
Comentário
(por ocasião da primeira sessão de lançamento)
Porquê escrever um livro com o título «Olá, eu sou um livro»?
Os que me conhecem melhor, suspeitarão que a coisa tem algo de deformação passional e não esconde o meu apego aos gestos filosóficos.
Mais precisamente, este título apontaria para o gesto de provocar o movimento reflexivo dos leitores, de
procurar despertar para modos secundários de ver, de tentar introduzir outras perspectivas no olhar, de deixar
algumas pistas para pensar.
E, de facto, à medida que se lê este livro, o leitor vê-se enredado não prioritariamente na pequena e simples narrativa que conta a ida da pequena Emília a uma livraria para comprar um livro, mas no universo dos livros e da
leitura, como que se de um universo de relações pessoais se tratasse.
A personificação que nesta história se faz do livro da capa de cartão, permite, por um lado, sentir o livro enquanto entidade viva, e, por outro,
passar da ideia do livro como objecto, entre tantos outros objectos de
manuseamento (um utensílio), a um objecto de consideração, na medida em que carrega o dizer de pessoas e se insere num processo criativo
de comunicação humana, com a partilha que isso implica.
De facto, o livro propõe que partilhemos o mundo que ele nos abre.
Assim, a focagem que aqui se faz do livro é o de uma entidade que nos faz imaginar, nos faz viajar, nos leva a pensar, nos
abre portas a novos mundos — ainda que para isso seja preciso que nós consigamos transpor essas portas que ele nos abre, numa entrega que requer
competências, sensibilidade e disponibilidade, mas que tem também no seu reverso a construção de laços de amizade e de companheirismo, a aquisição de referências, que, porventura, permitirão mais tarde dizer: «— Nunca me esqueci daquele livro em que...».
Por outro lado, a vida de um livro, se bem que ganhe autonomia relativamente aos
seus autores, deixado que é às infinitas possibilidades de interpretação, não deixa de ter os autores por detrás dele, como marca singular de humanidade, como legado de criatividade, como
obra humana. Representa que alguém se dedicou a fazê-lo e que devemos apreciar o alcance de uma tal dedicação. É o questão de apreço pelo humano.
Mostrei certo dia o livro a uma pessoa amiga, que me disse que tinha gostado,
mas que agora tinha piada saber qual a história que estava no livro de capa vermelha de que falo neste livro.
De facto, depois de o ter folheado e de ter visto as belas ilustrações nele contidas, esta minha amiga ficou sedenta de uma história, mas a história que encontrou não era propriamente aquela que ela tinha imaginado. Aliás, pareceu-me que para ela nem era propriamente uma história, e, se calhar, ainda menos para crianças.
Mas a minha preocupação era menos a de contar uma história que as crianças gastassem de ouvir, do que a de transmitir aos mais pequenos a ideia de que
os livros devem ser bem tratados, que merecem a nossa consideração, e de deixar no ar a suspeita de que nossa relação com os livros pode constituir uma promissora e apetecida aventura. Pelo menos,
foi isso que a Emíla sentiu.
Queria, finalmente, fazer uma referência à ilustração do livro.
Primeiro, para vos dizer que foi a ilustração que determinou a forma final deste livro, a sua paginação.
Depois para vos referir que o presente livro nasce da síntese dos dois trabalhos feitos individualmente (o da escrita e o da ilustração) e que, nesse sentido, ele é um verdadeiro trabalho de co-autoria que nasce duma conjunção de sensibilidades.
Por fim, para realçar o talento da ilustradora e a criatividade da ilustração, factores que considero decisivos na dimensão apelativa deste livro e na capacidade de cativar os seus leitores.
Rui Grácio