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  Especialista em pequenas narrativas de que saltam mundos,
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Um país onde as pessoas vivem de pernas para o ar
A vida de um peixinho vermelho que escrevia um livro que a Sara não sabia ler.
Um menino Jesus que não queria ser Deus.
Um bolo que queria ser comido mas que não o foi por causa do pecado da gula.

Em cada história deste livro, que teve a sua primeira edição no já distante ano de 1973, Manuel António Pina, autor de um extenso conjunto de livros para crianças e jovens, supreende-nos e diverte-nos com as narrativas que apresenta.


Comentário

Apresentar a reedição de O País das Pessoas de Pernas para o Ar, primeiro livro que Manuel António Pina escreveu para crianças constitui muito mais a celebração de um reencontro, e como tal as saudades são anuladas, do que a descoberta de um novo título, algo sempre desejado, sobretudo quando tem a assinatura deste autor. Trata-se da quarta edição, tendo as três primeiras surgido num período que foi crucial para a nossa literatura infantil - 1973 a 1978 – em termos de investimento numa efectiva qualidade literária.  
Quando se trata de Manuel António Pina, habitualmente se diz que não precisa de apresentação, dada a divulgação da sua obra. Creio ser minha obrigação recordar que é beirão e que passou por Coimbra, nos anos 60, para frequentar e concluir o curso de Direito. Sendo uma personalidade riquíssima, apresenta um percurso polifacetado que vai do jornalismo (trabalhou no Jornal de Notícias durante 30 anos, onde foi chefe de redacção, e colaborou com outros jornais de referência) à literatura, passando pelo ensino (leccionou na Escola Superior de Jornalismo do Porto) e pela tradução; como escritor, são da sua autoria mais de três dezenas de obras de poesia, crónica, ensaio, literatura infantil, para lá de mais de duas dezenas de peças de teatro. A sua obra poética e de literatura infantil está traduzida em numerosas línguas, sinal do reconhecimento da crítica internacional. Textos seus foram adaptados ao cinema, à televisão e à banda desenhada, assim como outros foram musicados e editados em disco. Os prémios são muitos; sublinho, somente, em 2001, a Medalha de Ouro de Mérito da Cidade do Porto, em 2002, o Prémio da Crítica (Ass. Intern. Críticos Literários) e, em 2005, o Prémio APE de Poesia.
Estamos perante uma obra emblemática, tendo em conta o ano em que foi publicada (1973) e o facto de ser a primeira obra de literatura infantil do autor. Prenunciam-se, aqui, sinais das grandes mudanças que, após a Revolução dos Cravos, vamos ter no domínio da criação literária para crianças. Libertados das malhas da censura – porque, será bom recordá-lo, os livros para crianças eram objecto de análise dos censores – os escritores puderam usar a língua portuguesa como alimento do imaginário infantil. Ora, este livro subvertia elementos intocáveis para o poder do passado, tais como o direito à diferença ou os dogmas da igreja católica. Trabalhar o nonsense causou surpresa, por muito que Alice convivesse connosco; trazer Jesus para um mundo profundamente humano podia ser visto como um pecado (não sei se capital, se venial…).
Num conjunto de artigos e recensões publicado recentemente, intitulado Avanços, recuos, José António Gomes faz uma excelente análise desta obra de Pina, interrogando-se sobre a demora no seu reaparecimento nos escaparates; questão pertinente, já que estes textos não estão datados e permanecem, porque são muito bons, actuais. Felizmente, ei-la, com pleno respeito pelo grafismo inicial, ou seja mantendo o trabalho criativo de João Botelho.
Vejamos, então, este livro de Manuel António Pina, o primeiro, para sentirmos como a sua leitura nos dá um grande gozo. Quando falo no plural, ao nível da recepção, faço-o ciente de que a boa literatura para crianças (e recordo que MAP coloca intencionalmente aspas na preposição, o que já diz muito) toca adultos e crianças, implicando uma fruição de níveis distintos, porque as competências e as vivências são diferentes. Temos quatro contos, breves, que podem ser vistos em dois planos de acordo com os elementos que centralizam a acção: nos dois primeiros, Sara, uma menina de poucos anos – será mera coincidência (ou talvez não) a filha de MAP ter este nome? – e  nos dois seguintes, o Menino Jesus. O primeiro tem o título que é utilizado para o livro e que, por si só, denuncia as situações aparentemente absurdas que iremos encontrar na totalidade dos contos. E quem é que não gosta de visitar um mundo onde o senso comum não entra? Fausto é o nome do passarinho de Sara (por três vezes intencionalmente nomeado) que, um dia, resolve ir conhecer mundo. Descobrir um país onde todos andavam de pernas para o ar e os seus habitantes considerarem isso perfeitamente normal levantam ao leitor a questão do que é a normalidade. Fausto começa a perceber que o seu modus vivendi é terrivelmente aberrante naquela  terra e faltam-lhe argumentos para demonstrar a bondade da sua tese – pés no chão, cabeça para cima. Convidar George, o amigo ali feito, para visitar o seu país parece-lhe ser a solução mais lógica, pois não há nada como ver para crer. O autor tem o cuidado de introduzir na narrativa uma variável – a referência a outras terras estranhas, como aquela em que as pessoas assobiavam em vez de falarem – para validar o direito à diferença. Sara, Fausto e George tornaram-se grandes amigos, pois o brincar é uma linguagem universal que não conhece fronteiras… e era mesmo muito divertido aprender a fazer o pino ou a andar de cabeça para cima. E aqui temos a síntese dos contrários, provando que ela pode ser enriquecedora e não conflituosa.
  A adesão de crianças e adultos a este conto é evidente. Começo por sublinhar a sua simplicidade, seja a nível formal, seja no domínio do conteúdo, prova concludente da escrita laboriosa do autor. Não é nada simples ser simples. Duas ideias-chave ressaltam do texto – a recusa da vida numa gaiola, por muito alimento que ali haja, e a descoberta do outro. A curiosidade é uma qualidade que as crianças têm, nunca um defeito; se queremos crianças criativas, alimentemos a sua curiosidade e a sua imaginação. Fausto tinha de ir conhecer o mundo para crescer; nessa procura, descobre a diferença e o direito de ser diferente; uma criança que ouve ou lê esta história abre mais uma janela na compreensão do que a rodeia e abranda o seu egocentrismo. A multiculturalidade é um fenómeno recorrente nos dias de hoje e, bem cedo, as crianças habituam-se a conviver com amigos que vêm de terras diferentes e culturas contrastantes. Não esqueçamos que este livro aparece em 1973, um tempo em que o contexto político-social era bem diferente; trinta e quatro anos depois o texto não perdeu actualidade, o que denota a intemporalidade ideológica subjacente. Creio que reside aqui, igualmente, a resposta para a boa recepção dos adultos. Valores como a liberdade, o direito à diferença, o conhecimento do outro, a solidariedade perpassam no texto e obrigam-nos, na leitura, à reescrita do mesmo, temperada com as nossas vivências e conhecimento do mundo; quando o autor, sabiamente, convoca António Nobre para inserir o “George, vem ver o meu país de marinheiros”, está a olhar para o adulto e para a imagem de um país que foi educado para se alienar com um saudosismo paralisante. Fazer as malas e partir foi a solução encontrada por muitos portugueses para fugir às gaiolas que não eram nada douradas; a memória dos adultos leitores não esquece isto.
 O segundo texto apresenta também Sara como elemento de referência; não temos aqui um passarinho, mas um pequeno peixe vermelho chamado Noé (a escolha dos nomes não é, como vimos, aleatória). A linguagem dos afectos domina toda a narrativa, já que o peixinho escreve um livro sobre a sua vida de peixe e a Sara sentia-se muito contente, sempre que ia a casa dele, por poder testemunhar o acto mágico da criação literária. Quando a menina aprende a ler e descobre que naquele livro só existem gatafunhos e riscos, fica triste; percebe, porém, que aquela era a maneira de escrever do peixe e que o que era realmente importante era gostarem um do outro. Um dia, o peixinho morre; Sara enterra-o no quintal, numa caixa com desenhos, e ali planta uma flor vermelha. A simbologia é evidente, reforçada pela escolha do nome carrolliano dado à flor – Alice. O mundo às avessas domina a narrativa, sublinhando que tudo está certo por mais que a razão nos diga que não.
 Os dois contos seguintes têm em comum a figura do Menino Jesus como protagonista de histórias muito humanas e pouco bíblicas. Na primeira, intitulada “O Menino Jesus não quer ser Deus”, os projectos daquele Menino em tornar-se totalmente humano, igual a todas as outras crianças, são gorados pelo pai do céu; na segunda, “ O bolo e o Menino Jesus”, temos a tentação oferecida por um bolo todo coberto de açúcar e a recusa porque a gula é um pecado mortal. Não estranho nunca ter visto estes contos presentes nos manuais escolares ou escolhidos para momentos de leitura em comunidade escolar. A formação católica de muitos portugueses leva-os a recusar liminarmente qualquer história heterodoxa no domínio religioso. José António Gomes, no artigo acima referido, estabelece uma clara conexão entre estes dois contos e o 8º poema de “O Guardador de Rebanhos” de Alberto Caeiro, demonstrando em que medida o texto pessoano funciona como hipotexto destas narrativas de MAP; também Lindeza Diogo estudou as intertextualidades com Pessoa, visíveis na obra de Pina. Não é aqui o espaço para uma reflexão aprofundada sobre esta matéria – e não esqueçamos que a obra de MAP é objecto de, pelo menos, duas teses de doutoramento – mas para um olhar deslumbrado sobre esta espantosa capacidade de humanizar Jesus, na fase da sua infância, em que este, provavelmente, foi igual a tantos outros meninos que corriam e brincavam na Galileia.
Em qualquer dos contos temos uma criança que fala como criança e tem os desejos próprios de qualquer menino. O desejo de trocar o seu estatuto com um companheiro, estatuto que lhe pesava terrivelmente, porque ele queria ser humano e não ter os poderes divinos, leva-o a propostas rocambolescas, sabotadas por Deus, porque o seu filho não pode ser igual aos outros. Para acentuar toda esta terrível antinomia, o autor introduz pequenos elementos com incrível força subversiva, a saber: para haver o milagre com os doutores da lei, Jesus tem de estudar muito nos dias anteriores; a ameaça da pomba como o papão dos meninos; os vizinhos que faziam humor com o facto de Jesus ser filho de uma pomba; o pedido que Jesus faz à Virgem Maria para lhe dar um irmão; Alberto Caeiro é um vizinho muito mau que não ia à escola e passava a vida com raparigas. Por aqui vemos que os níveis de leitura do adulto e da criança serão sensivelmente diferentes, pois a subversão da lógica católica implica um conhecimento adulto dos princípios da igreja católica; o destinatário deste conto será a criança, mas um nível pleno de recepção pertencerá ao adulto. Os paradoxos que alimentam o nonsense são subtilmente introduzidos no segundo conto, onde um bolo que imagina ser comido pelo Menino Jesus toma consciência de que um bolo não fica triste e não pensa, face a um menino, cujo desejo de comer o bolo é rotulado de pecado mortal (a gula). À noite, o medo dos sete pecados mortais não deixam dormir. É um verdadeiro mundo do avesso que nos é aqui apresentado: o leitor-criança avalia o sofrimento daquele menino-deus e nós, leitores adultos, recordamos os fantasmas alimentados por uma formação católica maniqueísta e tremendamente restritiva.
 A dessacralização das figuras divinas aqui presentes é intencional e pedagógica; há uma clara recusa do dogmatismo, quantas vezes carregado de autoritarismo, para mostrar que a natureza humana precisa da liberdade como do ar que se respira. A este propósito gostaria de vos recordar um outro texto belíssimo de MAP – O Cavalinho de Pau do Menino Jesus – publicado com o Expresso, no Natal de 2004, e que tem o mesmo protagonista dos anteriores. Há neles uma clara intratextualidade, já que aquele menino põe de lado o ouro, o incenso e a mirra e, numa atitude biblicamente incorrecta, opta por um cavalinho de pau oferecido pelo, imagine-se, Pai Natal. É esta espantosa capacidade de baralhar todos estes elementos para os redistribuir de uma forma originalíssima que conquista todos os leitores, seja adulto ou criança. MAP recupera a tradição anglo-saxónica do nonsense , oferecendo à criança destinatária destes textos um discurso que ultrapassa o domínio do senso comum (a que ela está habituada na vida quotidiana), produzindo um contexto impossível, ou seja, um contexto que nunca pode ter lugar no mundo real. São categorias lógicas diferentes que alimentam o humor oferecido pelo absurdo das situações criadas em redor das personagens. Mostrar o mundo sob uma luz outra clarifica o nosso olhar e ajuda-nos a relativizar a realidade.
MAP fala, a propósito da literatura “para” crianças, do divino dom de criar, o que conduz a uma espontânea relação das crianças com a literatura e com os livros; ora, a recepção literária é também um momento de fruição estética. Nestes quatro contos descobrimos como os leitores mais jovens podem, em plena cumplicidade com os adultos, pôr o mundo de pernas para o ar e sorrir face ao resultado final.
 Uma última palavra para a editora Pé de Página. Como leitor, e creio que veiculo a opinião de muitos outros, vejo finalmente a reedição desta obra, com a insistência no trabalho gráfico e nas ilustrações de João Botelho. Recupero um tesouro, nada deprimente, antes estimulante, da memória e da imaginação. As ilustrações complementam o texto, deixam-no respirar e surpreendem-nos pela cor e pelo insólito da dinâmica das figuras. Parece-me que foi um acto corajoso oferecer uma 4ª edição idêntica, em tudo, à primeira. Assim ficamos com a clara noção da força inovadora que este livro mostrou numa fase crucial para o desenvolvimento da literatura infantil em Portugal.


Rui Marques Veloso
8.06.2007
 
Título: O país das pessoas de pernas para o ar
Autor: Manuel António Pina
Ilustração: João Botelho
Preço:  14 euros
Ano de publicação: 2007
Formato: 21x21 cm
Acabamento: Capa dura
Disponibilidade: Disponível
N.º de páginas: 32
ISBN: 978-989-614-070-4
Classificação: infanto-juvenil

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