Sinopse:
Durante algum tempo, noticiei crimes rurais para jornais interiores. Naquele
tempo, não só os crimes eram rurais. A vida também o era. Ainda o é, aliás. Dois desses crimes aparecem transfigurados neste livro. A vida também aparece transfigurada neste livro.
Dos crimes, guardo a natureza posterior da violência. Em redor das casas-cenários, os vivos magotavam-se para comentar gulosamente o escândalo que a morte sempre é. Os vivos eram aldeãos de botas de borracha com hábitos e hálitos de aguardente, eram mulheres velhas vestidas de negro e desconjuntadas
como guarda-chuvas, eram guardas republicanos que pareciam campónios uniformizados à pressa para a gala do assassínio.
Num ou dois desses casos, a Televisão veio, o que aumentou muito a realidade. Mas a realidade era só aquilo e aquilo mesmo: a vida e a morte encenadas ruralmente.
Nos intervalos civis dos crimes, eu escrevia outras coisas. Algumas estão aqui também e também transfiguradas: amores e desamores, ornitologias alcoólicas, duas ou três partes cavas para rir e demais histórias turvadas pela incerteza e pela teimosia de escreviver.
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